Professor da humildação

As lições de vida de um homem que fez repercutir com humildade a filosofia do yoga no Brasil.    Por Márcia Bindo

O professor de yoga entra na sala. É um senhor de porte pequeno, palavras bem articuladas, voz firme e suave. Enquanto ensina algumas posturas, pede para os alunos se soltarem mais: “Pratiquem com o espírito de criança! Mais livres, com poucos julgamentos, observando tudo com encantamento”. Hermógenes tenta explicar com palavras uma atitude que incorporou em sua própria vida e ainda hoje o faz ter a energia de um menino, com disposição para continuar a dar aulas (todas as sextas-feiras para uma turma da terceira idade), fazer palestras pelo Brasil e escrever livros.                                                                                                                                                                     Aos 35 anos, uma doença séria levou-o a ter contato com o yoga, força motriz de uma profunda transformação pessoal. Foi um dos precursores da filosofia no Brasil ao publicar o primeiro manual teórico-prático de hatha yoga em língua portuguesa. Sempre longe dos holofotes, escreveu mais de 30 livros e inspirou milhares de pessoas a experimentar uma vida diferente.

Passei um fim de semana com Hermógenes no Rio de Janeiro. Visitei sua escola, seu lar e pude conhecer a intimidade de um homem humilde e autêntico, que soube aplicar com elegância em seu cotidiano os conhecimentos que aprendeu entre os tropeços e solavancos da vida, como você vai ler a seguir.

Entrega e aceitação

José Hermógenes de Andrade Filho, conhecido carinhosamente como professor Hermógenes, conta que nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em uma família pobre. Mas Hermógenes teve também outra mãe, sua cidade natal. “A paisagem exuberante despertou uns grãozinhos de poesia em mim. Muitas vezes, quando contemplava a imensidão do mar em cima de um rochedo batido pelas ondas, com a água salpicando meu rosto, pude sentir o transcendente”, diz. A poesia, que ali Hermógenes sentiu brotar, iria influenciar as mensagens de seus livros, que tem muito de poético.

Por volta dos 10 anos, teve uma experiência que considera o primeiro contato com os princípios do yoga, e que futuramente regeriam toda a sua vida. Ao se banhar na beira do mar, foi puxado pela correnteza e quase se afogou, não sabia nadar. De repente, viu um rapaz nadando em sua direção. O salvador lhe disse: “Não tente me ajudar nem me segurar. Simplesmente amoleça”. Ele obedeceu. Entregou-se à circunstância e se deixou salvar. Naquele instante, Hermógenes aprendeu a lição da entrega. “Fui aprendendo de mansinho a viver de forma suave e a aceitar de forma positiva as dificuldades que a vida me impõe, para poder transformá-las em aprendizado.”

Aos 20 anos, como não havia escolas superiores em Natal e não tinha recursos para estudar em outra cidade, Hermógenes decidiu fazer um curso na Escola Militar do Rio de Janeiro, onde tinha hospedagem, estudo e alimentação. Virou coronel reformado e professor do Colégio Militar. Ali, em vez de endurecer, Hermógenes descobriu um jeito de adocicar a vida.

Bendita doença

Ainda era capitão do Exército quando, no fim dos anos 50, foi surpreendido por uma tuberculose. Foram anos de tratamento com pneumotórax (técnica usada na época, em que eram aplicadas injeções de ar entre a massa pulmonar e a pleura) e muita medicação. A recuperação foi lenta e dolorida. O médico lhe deu alta, mas condenou-o a uma vida pela metade: não poderia mais tomar banho de mar nem de sol, não poderia pegar chuva, andar descalço, muito menos trabalhar. Estava abatido, gordo e envelhecido, com a circulação e as articulações prejudicadas (difícil imaginá-lo assim, vendo sua vivacidade ao contar essa história hoje, 50 anos depois).

Um dia, viu em uma livraria um livro de hatha yoga – a corrente do yoga mais conhecida no Ocidente, que usa posturas físicas para atingir o autoconhecimento – em inglês (Yoga and Sports, de Elizabeth Haich e Selvarajan Yesudian), que ensinava uma série de posturas para melhorar a saúde física e espiritual. Para Hermógenes, o livro foi um manual “sem mestre”, extremamente claro. “Comecei a praticar yoga em silêncio e escondido, no chão frio do banheiro, assim ninguém me proibiria”. Aos poucos, Hermógenes começou a experimentar os efeitos benéficos da prática diária e, em alguns meses, sentiu-se renascido. Sua força e disposição retornaram, aumentava a amplitude de sua respiração, suas roupas já não serviam de tão frouxas e a boa cor retornava ao seu rosto. “Descobri que o corpo não pode ser visto como outra coisa senão como um meio para se chegar a uma sabedoria maior.”

Feliz em si mesmo

Era a morte do “normótico”, palavra que o professor criou para designar a doença de ser normal: viver de forma medíocre, repleta de maus hábitos, procurando a felicidade fora de si e não dentro. Hermógenes diz que, ao trilhar seu caminho, descobriu ainda outra doença, a “egosclerose”, a hipertrofia do ego, a base de todo o estresse do ser humano. “O egoísta ri quando seus apegos e desejos são satisfeitos e, na mesma medida, se deixa abater com o que não gosta. Atrás de tudo há um ego querendo poder, prazer e status. O resultado é uma desgraceira geral. Só podemos vencer essa doença por meio da ‘humildação’. Quando nos humildamos, reduzimos o ego e ficamos mais pertinho uns dos outros.”

Com a recuperação, Hermógenes diz que precisava agradecer a Deus, então se comprometeu a escrever um livro que pudesse colocar ao alcance das pessoas aquilo que teria sido, digamos, seu pote de ouro: “Yoga é independência, é sentir-se bem e feliz em si mesmo, quando fazemos o caminho de volta para casa, momento em que nos unimos à nossa esfera mais sagrada”. Mergulhou nos livros de filosofia para, em 1960, publicar o livro Autoperfeição com Hatha Yoga, primeiro manual publicado em língua portuguesa.

Sabedoria na prática

O livro causou rebuliço e Hermógenes começou a receber cartas de pessoas que insistiam para ele dar aulas. Ele diz que relutou, não queria vender yoga. “Uma amiga me disse que eu não vivia em uma caverna na Índia, logo teria de cobrar pelas aulas para pagar o aluguel e as despesas da escola.” Então, um dia, um amigo fez uma surpresa – o levou para conhecer um espaço no centro do Rio de Janeiro e comprometeu-se a pagar a mensalidade se o professor não conseguisse alunos (o que nunca foi preciso). Surgiu aí a academia, fundada em 1962, que permanece até hoje no mesmo endereço, sem ter filiais ou propaganda.

Nessa época, Hermógenes conheceu Maria, que viria a ser sua companheira. Ao seu lado, viajou muitas vezes para a Índia e teve a oportunidade de conhecer o mestre indiano Sai Baba e, posteriormente, traduzir três de seus livros e fundar o primeiro centro dedicado ao mestre no Brasil. Em 1993, numa de suas viagens para a Índia, Maria foi atropelada por um caminhão e, após o acidente, ficou com seqüelas neurológicas sérias, teve mal de Alzheimer e morreu em 2002. Hermógenes dedicou os livros Iniciação ao Yoga e Superação à Mulher, com os dizeres que sempre usa em momentos difíceis: “Entrego, confio, aceito e agradeço”. E completa: “Maria a mim não pertencia, logo não a perdi. Temos mania de achar que possuímos as coisas e as pessoas. Uma tremenda ilusão. Quando percebemos isso, a vida fica mais leve”.

Rir é o melhor remédio

Sua prática diária inclui meditação, caminhadas, alimentação vegetariana e uma boa dose de bom humor. “Meu avozinho está sempre contando uma piada, fazendo palhaçada e imitando personagens, é uma zoeira só”, diz João Thiago Siqueira Leão, de 25 anos, um dos seis netos homens. Faz tempo que Hermógenes descobriu os benefícios de uma boa risada. “Rir relaxa os músculos e estimula o sistema imunológico do corpo”, diz ele.

O professor costuma aplicar nas aulas e palestras o que chama de “a grande gargalhada”. Ele sai na frente, a turma o imita e logo a gargalhada gostosa contamina a todos. Essa brincadeira dá espaço a uma alegria infantil e descondicionada – cada um a rir da gargalhada dos outros. “É a chance da criança encolhidinha dentro da blindagem, reprimida há anos pelo formalismo imposto pela vida adulta, se soltar feliz.” Assim, a turma dá adeus às aflições, zangas e tristezas e deixa o bom humor tomar espaço.

Caminho de volta

No pequenino apartamento alugado em Botafogo, de onde dá para observar o pôr-do-sol no Pão-de-Açúcar, Hermógenes encontra tranqüilidade para escrever mais dois livros. Enquanto ele me lia alguns de seus novos “poemas do coração”, perguntei como fazer para encontrar um bom professor de yoga, já que existem tantas escolas e linhas. “Jesus foi um grande yogue. Ele dizia: ‘Reconhecerei as árvores pelos seus frutos’. Todos nós colhemos os frutos de nossas escolhas e ações, que podem ser bons ou bem azedinhos. Observar as atitudes do professor pode ajudar bastante. Se ele põe em prática o que fala, já é um bom começo.”

Muitos de seus frutos o professor guarda carinhosamente nas gavetas. São as cartas que recebeu – e continua recebendo – de pessoas que leram seus livros e foram tocadas profundamente. O professor mostra-me a mais recente, de um presidiário da cadeia pública de Natal. “Durante minha vida, era apenas um materialista, sempre com um grande vazio no coração. Era um empresário da construção civil e, pela ambição, hoje me encontro preso. O que acho da prisão? Horrível. Mas para mim foi uma misericórdia divina. Por quê? Porque, por meio da prisão, a vida me apresentou o yoga, com seu livro. Quero lhe dizer que, mesmo sendo um desconhecido para o senhor, lhe tenho muita gratidão e um enorme amor.” Hermógenes visitou em janeiro o detento e pôde lhe dar um caloroso abraço. Apesar de preso, ele se sentia mais livre. Estava, como o professor, encontrando sua esfera mais sagrada, fazendo o “caminho de volta para casa”.

Para saber mais

Autoperfeição com Hatha Yoga, Hermógenes, Nova Era
Yoga para Nervosos, Hermógenes, Nova Era
Um Mergulho na Paz, Hermógenes, Nova Era www.profhermogenes.com.br

 

O Perfume do Santo da Montanha

A cabana do Santo era muito pobre. Era muito longe, a muitos sois. Estava muito alta, lá juntinho do pico mais nevado. Ficava nas terras onde o sol nasce. Mas ele peregrinou. Sofreu muito. Venceu distâncias e dificuldades e toda sorte de privação. Mas ele chegou à cabana pobre do Santo, cujo olhar silencioso e orvalhado de maior bondade envolvia o forasteiro e aconchegava quem o buscasse, quem chegasse até lá. Viveu com o Santo, acompanhou-o em suas austeridades, impregnou-se de sua imensa paz imperturbável, colheu de seu infinito saber e aprendeu bondade. Cedo demais voltou. Cedo demais se despediu, em silêncio, do Santo da Montanha, que ficou em meditação. Cedo demais retornou ao mundo vulgar que deixara.

A princípio, nos atos, nos modos, no olhar, nas palavras era todo paz, saber, bondade…

A paz, o saber e a bondade do Santo que ainda o acompanhavam, assim como o perfume de varetas de incenso, que adere à roupa guardada no mesmo armário… Era bom, era gostoso gozar de sua perfumada presença…

Mas o mundo que o cercava foi demasiado demolidor. A vulgaridade, com seu poder corrosivo e esterilizante, não demorou a triunfar. Arrebataram-lhe, aos poucos, o que ele trouxera… Os miasmas do mundo competitivo, a fedentina dos interesses e os refinados perfumes artificiais paradisíacos, de pessoas que se acercavam, egoístas e aliciantes, sem respeito e sema amor, acabaram por sufocar o cheiro bom de santidade… A paz, a sabedoria, a bondade emigraram, não se sabe para onde… Foram afastadas pelas condições adversas reinantes na mediocridade maciça…

Meu irmão, que voltaste da cabana do Santo, desperta, reage, não deixes que tudo se perca… Lembra-te do quanto andaste, do quanto suportaste… Lembra, com amor e devoção, a magnanimidade do Santo e dos divinos momentos de meditação silenciosa na paisagem da montanha, na cabana pobre do Santo… Esforça-te com empenho e conseguirá atrair novamente a ti o bom perfume de homem bom, a limpidez da alma santa, a paz reinante no coração amoroso…

Eu e muitos outros que não tivemos a ventura de conviver com o Santo da Montanha, nós que não tivemos a felicidade de Sua presença, nós precisamos de ti. Por que não ficaste mais tempo, o tempo suficiente para que tu também tivesses virado perfume?!… Se aqui tivesses chegado perfume e não somente impregnado de perfume, a mediocridade malcheirosa não venceria… Reage me irmão, restaura a paz, o saber e a bondade… Seja tu mesmo Paz, Saber, Bondade e perfuma todo o mundo.